Review do Google Glass e a minha relação com óculos

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Para começar é importante ressaltar que o Google Glass ainda não é um produto, mas sim um device que está em uma espécie de “beta público”, volto para esta questão mais adiante.
O Glass é um categoria nova, que embora esteja dentro da área de wearables que já possui vários produtos comerciais como os smartwatches ele é ainda mais profundo na interação com o corpo.
Falando em corpo, primeiro uma história pessoal. Eu uso óculos desde os 3 anos de idade quando meus país descobriram que eu via carrinhos muito perto. Herdei da minha Mãe além de uma paixão pela ciência e muitas outras coisas uma miopia grande. Por volta dos 7 anos comecei a usar lentes de contato, de novo a minha mãe colocava em mim e só fiquei independente ai pelos 9 anos. Minha vida mudou, pude fazer esportes como a vela bem mais a vontade e durante a adolescência eu morria de vergonha de aparecer em público com os meus óculos com lentes grossas e armações pesadas. A tecnologia evoluiu, e eu também :-), e as lentes High Index com armações de materiais modernos me permitiram ter óculos leves. Há uns 3 ou 4 anos atras eu tive uma alergia que me fez voltar a andar de óculos. Foi estranho pois muita gente que me conhecia há muito tempo nem sabia que eu era míope. Como o humano é adaptável eu consegui voltar a usar sem problema, ainda uso lentes só para praticar esportes.
Ok, fechando os parênteses essa história é parecida com a de várias pessoas que possuem um grau alto, ou mesmo que precise usar óculos todo o tempo. O Herbert Vianna até transformou em música o “trauma” dele… Mas a questão que importa aqui é que a relação de cada indivíduo com óculos é complexa e para quem não usa talvez seja ainda mais desafiador. Neste cenário, a Google nos propõe a inserção de um óculos que não corrige nada, ainda, mas que amplifica a possibilidade de informação colocando um display always on na nossa frente.
Bom, o primeiro passo do design liderado pela equipe da Isabelle Olson foi justamente não colocar o display bem na frente, mas levemente acima dos olhos. Com isso, podemos ainda manter contato olho no olho com as outras pessoas. Falando na equipe da Google isso me lembra a historia do mouse e UI gráfica vinda da Xerox e aprimorada na Apple. O conceito de “óculos inteligente” vem do Steve Mann no MIT, ele sempre foi considerado um maluco completo ao usar os protótipos. Já na Google, a ideia é tornar a tecnologia invisível. A Isabelle Olson e o seu time tiraram tudo o que não era preciso e colocaram um computador, com a estrutura de um smartphone, em um só lado do óculos e a grande sacada foi colocar um pequeno projetor que emite uma luz para um espelho transparente (dai o nome Glass) que simula uma tela bem grande a alguns metros de distância.
A primeira vez que eu vi o Glass pensei que isso poderia ser muito intrusivo para a retina, mas como a projeção não é diretamente no olho é ainda mais tranquilo do que os displays convencionais.
Mas o grande ponto do Glass, e de outros wearables, é não ser consumido todo o tempo. Ele foi concebido para pequena interações, como notificações ou Apps utilitárias. Apesar disso, é possível sim navegar por páginas Web ou ver vídeos. Porém, o uso constante destes recursos acabam logo com a bateria. Falando nisso, ela dura bem para um dia de uso regular, sem muitas interações ou gravações de vídeos.
A câmera, é o outro lado da moeda: com 5mp para fotos e 720p para vídeos ela surpreende pela qualidade. Algo que ajuda é a lente grande angular que permite uma noção melhor do mundo em volta.

O estado da arte:

De novo, como ele é um protótipo público, a cada mês sai uma atualização adicionando novas funções. No último update, por exemplo, eles adicionaram a possibilidade de tirar fotos piscado o olho. É bizarro, demora para calibrar, mas quando dá certo é muito eficiente. Quando se está caminhando com luvas ou com as mãos ocupadas carregando algo é só fazer este “gesto” para capturar o momento. Só não faça na frente de um estranho, please.
O Glass pode ser operado sozinho depois do setup inicial, que pode ser feito com um smartphone ou no computador. Ele tem acesso WiFi direto e quando se está na rua pode-se conectar pelo celular via Bluetooth. No Android funciona se comunicando com a App do Glass, no iPhone a App não pode rotear sinal de internet por uma limitação de segurança do iOS e é preciso habilitar a função hotspot (Bluetooth ou WiFi).
No computador ou na App para Smartphone é possível selecionar e colocar senhas de redes WiFi além de habilitar e configurar Apps e serviços.
Quanto a Apps e serviços, a Google começou oferecendo desde previsão do tempo até navegação, passando claro pelo search. Em dezembro eles começaram a vender um fone de ouvido Stereo, além do mono que vem com ele, para escutar músicas do Google Play Music. Este serviço funciona super bem, mas como é sempre por streaming a bateria sofre. Há uma integração super boa com o Google+ e é possível fazer Hangouts enxergando a pessoa do outro lado e transmitindo a imagem da câmera. Logo, a pessoa vê o que você vê. Além disso, a Google colocou a disposição jogos, cronômetro, stopwatch e bússola para demonstrar possibilidades de desenvolvimento.
Já empresas terceiras oferecem Apps para turismo, culinária, noticias (CNN, NYT, Mashable, Zite e outros), redes sociais (Facebook, Twitter e Tumblr), esportes (tanto Apps para ver como para praticar) e utilitários como o World Lens que traduz textos em imagens.
Com já tantas possibilidades usar o Glass não requer uma atenção constante. Cada notificação de uma destas Apps é feito primeiro com um sinal sonoro. Depois a pessoa escolhe se quer levantar a cabeça 30 graus (pode ser regulado) ou ainda dar um toque no trackpad para ativar o display. Essa ideia é importante para que o visor não fique todo o tempo interferindo nas ações o cotidiano ou atrapalhando uma conversa.

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Além destas funções, vários desenvolvedores começam a liberar App para testes. Algumas bem interessantes, como uso do Glass para medicina, uso para museus (esse é o tema da aula que eu participo aqui no MIT) ou ainda para conduzir apresentações. Enfim, o tempo e o uso vão dizer quais as categorias fazem mais sentido.

Uso:

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Tive duas fases de uso do Glass, antes de ter uma armação correta para as minhas lentes e depois. Ter que colocar ele por cima da armação convencional é complexo e desajeitado, mesmo assim consegui andar um pouco pela cidade e andar de Bike. Usava pouco e principalmente em casa. Não só para mim, mas para todas as pessoas que precisam de alguma correção as novas armações feitas de Titânio são excelentes. Isso prova que a Google está ouvindo muito o fórum do Explores (como eles chamam as pessoas que tem convite para testar) e está muito engajada em fazer esta tecnologia funcionar. O pedido de uma solução para quem precisa de lentes corretivas era o forum mais popular e várias outras empresas já começavam a oferecer alternativas. A equipe do Glass resolveu desenhar in house as armações e não fazer parcerias, o que pode mudar no futuro. Existem 4 opções de armações e escolhi a Bold que me parecia mais apropriada para lentes pesadas como a minha. Embora eles recomendem lentes até 5 graus, consegui colocar as minhas, que são de 8.5, e ainda colocar Transitions para o Sol. Um detalhe, o visor do Glass também escurece no Sol para que o display fique mais nítido. 20140211_102754_740_xTodo o conjunto não ficou tão pesado, graças ao frame de Titânio, super leve. Como o próprio Glass, todos os acessórios vem em uma embalagem super premium com vários detalhes. A armação acompanha um lindo estojo com uma pequena chave para retirar o Glass do frame original e colocar no novo. É só um parafuso, o design foi realmente muito bem pensado.
Bom, feitas as lentes e colocada a nova armação ai comecei a me aventurar mais e tentar passar a maior parte do dia com ele. No começo é estranho mas em alguns dias já conseguia entender quando e como eram as situações mais claras de uso. Realmente a possibilidade mais bacana é poder registrar cenas do cotidiano instantaneamente. Tirei muito mais fotos do que normalmente faria com um smartphone. Alertas de lugares de interesse próximos em alguns momentos foram de uma precisão absurda. Teve um restaurante que eu estava passando em frente e ele mandou um alerta recomendando o local. Outros avisos como alertas de tempo severo e noticias importantes foram muito práticos no Glass, pois nem sempre quando se está andando se percebe estes sinais no smartphone. 20140213_180012_708_xMas talvez o uso mais bem desenhado para esta tecnologia é a navegação. Poder ver o mapa superposto na sua frente em uma camada entre você e as ruas reais é uma sensação muito bacana. Sempre achei muito chato andar em viagens olhando para a tela do celular. Não tirar a direção do seu olhar é fundamental e é o principal objetivo do Glass.
Em casa ele também se mostrou útil, desde o uso de cronômetros e receitas na cozinha até estatísticas esportivas como uma segunda tela fizeram todo o sentido. Poder realizar tarefas com as mãos ocupadas é um dos pontos do Glass.

Conclusão:

Retomando, ele não é um produto ainda, mas cada vez mais se parece com um, é uma questão de tempo. A própria forma como a Google propôs este lançamento é super interessante. Ela fez um crowdsourcing, pois todos os explores pagaram bem caro para participar, e conseguiu criar uma produção pequena mas significativa. Fez um atendimento individual para todos que entraram no programa e está aprendendo o que pode ou não explorar com esta tecnologia. De quebra, ela vai ganhando publicidade gratuita cada vez que acontece algo tipo: primeira pessoa a ser multada usando Glass, primeira cirurgia, primeiro âncora de TV usando o Glass…
Esta tecnologia não é uma evolução de algo que já existe, portanto esta forma de introduzir o produto até o mercado foi perfeita. A Google utilizou a experiência de Beta testers de software para um misto de hardware/software. Só ela poderia fazer isso desta forma. Jamais uma Apple iria por este caminho, e talvez por isso a maça esteja inovando mais por progressão do que por ruptura. Não é melhor nem pior um modelo em relação ao outro, mas são formas e objetivos diferentes de conduzir a inovação.
Não sei quando nem como vamos ver as pessoas usando esta tecnologia, mas os motivos e situações de uso já me parecem claros. Como hardware ainda tem que evoluir muito e ficar mais invisível, mas o conceito já está proposto. Vamos ver como os contratos sociais são estabelecidos e se as pessoas irão se sentir vontade. A tecnologia está quase pronta, a cultura é como sempre onde mora o mistério sobre o futuro!

 


Este vídeo eu montei compilando várias cenas e situações em primeira pessoa.
Update 25/3/14:

Como eu tinha comentado a precisão em alguns momentos é impressionante. Hoje eu estava passando pela linha de chegada da Maratona e  um fato histórico pintou na tela:

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5 Responses

  1. Maria Teresa Weidlich
    Maria Teresa Weidlich February 24, 2014 at 10:15 pm |

    Olá professor!
    Por incrível que pareça me identifiquei muito com o parênteses sobre a tua história com os óculos e a miopia, lembrei da minha. Com relação ao Glass, só esperando pelo dia que eles vão criar armações Dolce Gabbana, e obviamente fiquei curiosa pra saber como rola a interação do device com a moda nas ruas… Muito bacana a review! Curti duas vezes.

  2. Matheus Beck
    Matheus Beck February 25, 2014 at 4:34 pm |

    Mestre, curti a análise de tudo, mas o vídeo mostra mais do Glass (e de ti) do que se pode supor. Já teci várias teorias para o Luiz Cabral em off. Se precisar de uma avaliação ordinária de quem vê de fora, pode contar comigo. Abs

  3. Rafael
    Rafael May 27, 2015 at 11:36 pm |

    Oi, Eduardo adorei o seu review! Estava pensando em utilizar o Google Glass para gravar uns treinos de corrida de rua e pelo seu vídeo eu já pude ver que ficaria muito legal, a qualidade da imagem é muito boa.

    Muito obrigado por compartilhar essas informações, gostei muito do seu site.

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